Entrevista com Gizely Dall’Agnol

Gizelu - site

20 de fevereiro de 2017 • Entrevista • Visualizações: 203

“Toda a minha maturidade profissional aconteceu em Marau, que estará para sempre no meu coração. Além de grandes amigos, uma segunda família, continuo com muitos vínculos na cidade. No começo, eu fui escolhida por Marau, e muito bem acolhida pela comunidade marauense. Depois, escolhi ficar na cidade por 10 anos, período de muitas alegrias e boas recordações.”

Tudo começou com as receitas de saladas que você inventava, mas por que? A cozinha é o teu hobby ou talvez uma aspiração profissional?
Não exatamente. As saladas colocaram a reeducação alimentar de vez na minha vida, depois de muita “briga”! Eu escutei, sempre das nutricionistas pelas quais passei, desde criança, que deveria comer saladas. Mas, eu não suportava a ideia de pensar em experimentar. Para mim, comida não podia ser verde. E o resto acabava vindo na carona porque eu não comia coisas cruas. (Dá pra imaginar?!) Também não consumia nenhum tipo de tempero, até porque não tínhamos acesso ao que (felizmente) temos hoje, tanto em termos de informação quanto em termos de acesso para compra, graças às lojas de produtos naturais.
Com o passar dos anos comecei a comer algumas saladas disfarçadas de saudáveis porque, na verdade, carregavam ingredientes não muito saudáveis para disfarçar o sabor dos outros. Pouco a pouco fui deixando essas coisas de lado. E, com certeza a estratégia de provar uma coisa diferente em meio a outras que eu já comia foi importante para dar uma chance ao paladar. E aí a brincadeira foi ficando mais legal. O paladar vai mudando. Os estudos dizem que em 66 dias a partir de quando você se propõe a um novo hábito, consegue colocá-lo de vez na sua vida. Eu usava como estratégia levar as saladas para jantares com amigos ou preparava quando os recebia para jantar. Aí eu me empenhava em criar receitas diferentes do que aquelas minhas do dia a dia e isso tudo colaborou com o processo da reeducação alimentar.

Atualmente, tu ainda manténs a Cozinha da Gy em Veranópolis?
A Cozinha da Gy é o meu lugar no mundo, meu “QG”. E um local pensado para ser o meu espaço, com a minha identidade, com as portas abertas para acolher as pessoas e viver momentos bacanas, sempre ligados à cultura enogastronômica, e à promoção de uma relação saudável com o alimento, com as pessoas e com a terra que o produz.
A minha ideia é contribuir para que continue sendo através da cultura enogastronômica e da ligação com o território. Quero dar a minha parcela de trabalho para a minha cidade, poder contribuir fazendo projetos nessa direção. E estarei sempre pertinho de Marau para contribuir também com a minha segunda cidade.

Como começou essa carreira na Itália e quais os teus planos?
Começou provavelmente quando eu era criança, quando meu pai fez a cidadania italiana para todos lá em casa e eu não entendia bem para o que servia. Depois, em 2015 tive a oportunidade de vir para a festa mundial das famílias emigradas de Arsiè, das quais uma é a minha, e aproveitei para estender a viagem para conhecer empresas de óleo de oliva, de aceto balsâmico, e visitar a Expo Milano, a maior feira mundial do setor agroalimentar, que estava acontecendo em Milão. Essa etapa me proporcionou novos ganchos para retornar em 2016 graças ao excelente trabalho promovido pelas comissões do gemellaggio entre Marau e Isola Vicentina. Novamente estendi a viagem e, além da festa do gemellaggio e do curso que ministrei em Isola Vicentina, a minha agenda inclui cursos de norte a sul do país, em Asolo, Bologna e Napoli.
E eu fui também conhecer a Universidade de Ciências Gastronômicas na região de Turin, visita que mudou realmente a minha vida. Porque ali decidi que precisava voltar a estudar para me especializar na comunicação para o setor agroalimentar, e que isso tinha que ser feito aqui, na pátria da gastronomia. E tudo isso foi possível graças ao professor Zenesio Trevisan, que me ensinou a falar italiano.

Graças à internet e às redes sociais estamos podendo te acompanhar nessa viagem e acompanhar os novos projetos dos quais você está participando. Conte-nos um pouco mais sobre isso?
Esse é um mundo fascinante e o meu sonho agora é trabalhar com tudo isso no eixo Itália – Brasil, especialmente Veneto – Rio Grande do Sul, em função do carinho recíproco entre os dois países, sobretudo entre as duas regiões, a considerar que somos 3.8000.000 descendentes de italianos entre os 11 milhões de gaúchos. Eu tive a sorte de ser escolhida por este instituto técnico da região do Veneto e poder vir cursar essa especialização em Padova, que é uma das cidades universitárias mais importantes do mundo e uma cidade que permite fácil acesso às demais províncias. O Veneto é um laboratório agroalimentar, é importante protagonista das cadeias do vinho e de ortofruti, mas também do queijo, do salame. Sem contar nas inúmeras excelências gastronômicas, com restaurantes, osterias, bares onde se come e se bebe sempre bem. Sem contar que aqui a gente se sente “em casa”. Um dos meus projetos é contar isso ao Rio Grande do Sul através do projeto de rádio Sabores da Itália, que estou desenvolvendo com a Rede Sul de Rádios. Então, em breve, na rádio Alvorada, esta apresentação chegará para substituir as receitas de saladas de toda quinta-feira.
E o vinho?
O vinho também é um alimento, é um produto agroalimentar, importantíssimo aliás aqui no Veneto, que é a quarta nação do mundo em exportação de vinho. O vinho italiano dispensa apresentações, já conquistou até os franceses e felizmente o nosso vinho brasileiro segue o mesmo rumo graças à origem das famílias do setor. Eu não tomava vinho até 11 anos atrás, quando fui morar em Marau. Foi quando perdi meu pai e o vinho foi uma das formas que encontrei para me sentir mais perto dele. Como bom descendente de italianos (principalmente do Veneto), ele tomava um copinho de vinho todos os dias. E eu pensava que se começasse a tomar vinho, me sentiria mais perto dele. Na época, contei com o incentivo da minha amiga Francine Casanova e deu certo. Mais do que certo, me levou mais longe. Me abriu uma estrada. Para trabalhar no mundo apaixonante do vinho, a primeira premissa é gostar de vinho! O vinho hoje apresenta uma possibilidade espetacular seja no Brasil ou na Itália, dentro dos projetos de Enoturismo e este é um setor que particularmente me encanta desde que comecei a acompanhar a estruturação do projeto da Rota das Salamarias, pelo qual tenho grande carinho e com o qual pretendo contribuir com os conhecimentos que estou adquirindo nesta fase de especialização.

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