Ansiedade e Pandemia

18 de agosto de 2020 • Alessandro Adami, Colunistas • Visualizações: 273

Em 2020, decorrente das mudanças provocadas pela pandemia tivemos nosso cotidiano alterado, assim como nossos hábitos. Sentimentos, de apreensão, medo ou temor se tornaram diários. Muitos perderam o emprego ou não sabem se continuarão com o mesmo. A relação com o que virá é incerta, surge um estranho mal-estar, pois não se sabe quando isso vai passar. Se antes tínhamos liberdade, agora parece que esta nos foi tirada e a frustração foi imposta a respeito do que podemos fazer. E é justamente diante da frustração que surge outro fator que se tornou mais rotineiro, a ansiedade. Se come, toma café, bebe, fuma mais do que outrora, assim como se vive mais perto da família, o que para uns pode ser um problema.
Dentro da vivência clínica o assunto da pandemia não falta dentro das sessões. Psicólogos clínicos têm relatado, como por meio de observações ou alterações da rotina o corona vírus (SARS-COV-2) aparece na fala dos pacientes. Uns tiveram seu modo de trabalho totalmente alterado, outros mantem a estabilidade, mas normalmente começam a sessão falando sobre o andamento da pandemia e o comportamento das pessoas.
Muitos se sentem afetados não só dentro das atividades econômicas ou rotineiras, a quarentena, incerteza a respeito do futuro é algo que lhes tira o sono, lhes faz pensar constantemente sobre o que será o amanhã. Este estranhamento provoca diferentes sensações e comportamentos, uns adaptativos e outros mal adaptativos, pois não são todos que tem a mesma condição. É como se estivéssemos todos na mesma tempestade, mas em diferentes barcos ou navios. O que se tornou comum a todos diante deste novo é o mal-estar e a ansiedade provocada por esta alteração tempestuosa no caminho de nossos barcos e navios.
Decorrente do modo como vive consigo mesmo e com os outros, da história pessoal, a ansiedade faz parte de nossas vidas, pois é algo inerente e normal a todos. Uns afeta mais intensamente e outros de forma mais amena. Ocorre tanto por temor a algo externo como interno. Pode se manifestar de três maneiras, diante de um perigo real, de forma automática ou por sinal de ansiedade. No primeiro caso, a ansiedade se caracteriza por aquilo que a motiva, um perigo externo. No segundo caso, é uma reação a uma situação traumática, na qual se defende espontaneamente em uma situação social. No terceiro caso, o sinal de perigo emitido pelo próprio sujeito, lhe permite reagir diante do perigo através de suas defesas.
Podemos ver suas manifestações em diferentes situações e circunstâncias da vida, como quando se é criança e tem medo de animais ou situações nas quais se apresenta a fobia. Uma condição que pode se repetir ao decorrer da vida e nos demonstra os traços que mantemos em nossa personalidade. Se manifesta também diante do inesperado, do qual não se está preparado para lidar, reagindo automaticamente como em uma reação de susto. Em situações de uma melhor adaptação, ocorre por sinalização do perigo, prepara o sujeito para se defender de algo. Quando não se pode aplacar seus efeitos, a ansiedade toma proporções diferentes, tanto na configuração de uma fobia ou uma desorganização psíquica no qual o sujeito fica tomado por um estado apreensivo do qual não sabe o que fazer nem os motivos de seu mal-estar.
A situação e condição de ansiedade que vivemos no mundo todo vem acompanhada no modo de cada um lidar com estes sentimentos. A ansiedade provocada por fatores externos nos dias atuais pode ser mais intensa perante notícias negativas diárias, a frustração constante quanto a algo novo que não vem, mas a maneira como se trabalha com a ansiedade é algo típico do sujeito.
É neste ponto, que junto com a ansiedade temos as formas de lidar com ela, que antes de tudo é um afeto. Sentir ansiedade nos dias atuais decorrente da pandemia é normal. Estranho seria não sentir medo ou apreensão diante de nossa realidade. No entanto, estas sensações, a alguns é sempre estranha, pois acontece de forma desproporcional, de tal forma que a ansiedade toma conta dos pensamentos e ações. É sempre importante nestes momentos, que seja possível ponderar, caso o sofrimento seja muito intenso, é preciso procurar ajuda, seja ela psicológica ou psiquiátrica, pois como também tem nos informado a Organização Mundial da Saúde, psicólogos e psiquiatras o adoecimento e esgotamento mental tem aumentado.
Perante situações extremas como a atual, alguns traços podem se tornar mais inflexíveis, avançando de um funcionamento normal da personalidade para traços mal adaptativos. A forma como se percebe e se relaciona com o mundo podem se tornar mais intensas, assim como o modo de se relacionar consigo mesmo. E é desta intensidade que vemos uma maior procura por serviços de saúde mental, tanto pelas questões da quarentena como do que provoca esta quarentena em nós.
Se adoece devido a uma alteração do mundo exterior que colocou restrições no lugar de nossas satisfações e afazeres cotidianos. Enquanto uns conseguem controlar, conviver com os sentimentos ansiosos, regular a rotina, outros lidam mal, não toleram a frustração imposta pela realidade, nem no momento atual, nem em momento algum.
No entanto, também há aqueles que de certa forma gozam com a situação atual, pois a ansiedade se liga a questões sintomáticas, como daqueles que limpam a casa, lavam as mãos constantemente e sentem certo prazer nisso. Mas mesmo estes, que tem zelo demais e não se sentem prejudicados por isso podem pegar o covid-19, pois ninguém está imune a doença. Mesmo o excesso de zelo guarda seus furos.
Já passamos pela situação mais difícil, quando ficamos em casa preservamos e cuidamos de nós e nossa família seguindo as regras da quarentena e do não contato social. Agora estamos no momento de cuidado/precaução. E de fato agora a ansiedade pode ser maior, pois se escuta muito dentro de nosso cotidiano que as pessoas estão cansadas, não aguentam mais ficar em casa e não fazer nada. É neste momento que pode ocorrer o perigo maior, pois é justamente quando a ansiedade não é mais tolerada nem a frustração que tudo o que mantivemos até aqui pode se perder.
A ansiedade funciona como um sinal de perigo, assim como uma defesa, para que protejamos a própria vida. Imagina se não tivéssemos essa noção de perigo. A vida seria como tentativa e erro. Se ligam efeitos ansiosos ao modo de organização/funcionamento de cada um, a forma de lidar com os impedimentos da nova realidade, o modo como lida com a frustração diante das condições pessoais e sociais. Assim como o temor a sensação de ter perdido tudo o que teve até agora. São várias as condições sociais impostas diante da pandemia, a quarentena e a regulação das atividades.
O mais importante nestes momentos se encontra na relação consigo mesmo, da capacidade de poder se reinventar, criar novas atividades que não fazia antes da pandemia. Atividades que temos exemplos, de pessoas que se reinventaram para poder sobreviver.
É importante também poder inventar uma nova rotina, manter uma rotina de atividades físicas, brincar com as crianças os animais de estimação. Evitar a sequencialidade negativa muitas vezes imposta pela mídia. Não ficar o dia todo de pijama, escutar uma música, ler um livro. Recriar sensações de prazer e gosto pela vida quando estas parecem estar diminuindo ou se esgotando.
Cuidar da própria saúde mental diante de tanta adversidade tem sido uma tarefa um tanto complicada, mas que podemos alcançar quando conseguimos mudar o foco de nossa atenção e o planejamento de nossas atividades. Nem sempre o exercer é possível sozinho, se faz necessário então procurar ajuda, alguém que possa escutar aquilo que tem feito nó na garganta e não tem podido sair, assim como o que tanto tem se dito pelos quatro ventos, mas que parece não ser ouvido por ninguém. Falando nisso, você já se escutou?
O mais importante é se cuidar e poder acreditar, dias melhores virão.

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